sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Das horas de Dina e Sam - o fora

- Posso dormir aqui, com vc?
- Tenho a impressão de que já ouvi essa frase em uma música, rs. Desculpe, piada fora de hora. Pode sim. Aconteceu alguma coisa? Sam, é uma pergunta simples... não precisa chorar se não quiser responder. Senta aqui no sofá, em dois segundos eu trarei um chá. – ele levantou uma sobrancelha – Só bebo aos fins de semana.
- Desde quando?
- Desde ontem. Volto já.
Sabia que Sam não era o mais bem sucedido dos homens nos relacionamentos. Talvez fosse mais fácil se não fosse gay. Ou não. De uma certa forma os relacionamentos são difíceis para todos. Apenas algumas pessoas têm o dom de acertar de primeira (ou de segunda, ou terceira... entende?), e acabam se casando com 21 anos, tendo filhos cujos nomes já estariam escolhidos desde a infância. Não brinco, falo sério. Tenho uma amiga que desde os 8 anos decidiu que teria um filho chamado Guilherme. Advinha qual novidade me contou após dez anos de distância? Estou ficando óbvia.
- Chá... Beba enquanto estiver quente. O que foi?
- Cor linda. Nunca tomei um chá vermelho. – fez uma careta – e nunca mais vou tomar! Bem, depois do segundo gole, melhora. Sabe quando a gente é criança, se sente doente, mas como nunca passou por todas as dores de cabeça da vida, não sabe como descrever? É assim que me sinto. Eu não sei e eu não consigo entender. Se soubesse como é, talvez pudesse desmontar e lidar com as peças uma a uma. Sei que dói e muito. E sei que vai passar, mas de forma tão lenta que eu vou carregar isso por anos! E mesmo que passe, sempre me lembrarei disso quando fizer as contas de quantos relacionamentos já tive. Sinto o vazio, a dormência, a vergonha. É como se eu soubesse ser uma fraude e tivesse tentado voar com minhas asas de cera. Eu caí. Certo? Eu acreditei uma segunda vez que pudesse ser diferente e fui sem reservas ao vôo.
- Sam, eu não vou conseguir consolar você então vou direto ao que penso. Acho que encarnar o sofredor vai fazer sua dor passar tanto quanto ficar sentadinho esperando. Pensa comigo, passou por joguinhos, por idas e vindas, por mentiras e mentiras... Foi apoio, cozinhou o prato preferido dele e teve que jantar sozinho! Não devia ter dado tantas chances. É claro que eram amigos, mas depois de misturados os ingredientes, não há controle sobre o resultado final, acho. E também não vejo meio de separar sem que haja um pouco de cada um no outro. Não é que eu valorize as experiências, sei com dói. Sei como é bom ter alguém do lado, poder contar as coisas pequenas.
- Sabe do que eu mais sinto falta? Daquela curva do pescoço... Gostava de colocar meu rosto ali e sentir o calor... Quer que eu me sinta agradecido por ter levado um fora?
- Não. Quero que você veja o céu tanto quanto vê a terra. Com asas de cera, ou não, ainda dá para aproveitar a paisagem. E além do mais... está na cara que estamos nos divertindo mais com a busca do que com os encontros! Cara, eu poderia matar por uma taça de vinho!

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