Lá longe onde as folhas caem sem fazer barulho, onde o vento é tão suave que as próprias árvores precisam se desprender dos frutos para que suas sementes germinem, bem lá longe onde faz diferença ser bom ou mau, era onde morava essa lagarta.
Claro que não era uma lagarta comum ou eu não estaria perdendo tempo escrevendo sobre ela. Com o perdão das lagartas comuns. Era uma lagarta irônica. E irritada. Muito irritada. Principalmente com o fato de que detestava sua vida de lagarta. Na verdade, o que realmente detestava era o fim da sua vida de lagarta. Borboleta. Urgh. Seria melhor morrer do que ao invés de um corpo tenro começar a ter pontas, articulações... Asas?! Quem gostaria de ter asas? Suas amigas diziam que fazia parte da vida ser borboleta e poder voar compensaria todo o processo. Toda a escuridão, toda a dor.
“Eu não”, pensava. “Bom mesmo é ter cem pés! É sentir o cheiro das flores e ao mesmo tempo sentir sua textura com todo o corpo! E se realmente existe um Pai de todas as lagartas ele compreenderá minha decisão de ser lagarta para sempre.”
Os dias foram passando, as flores foram murchando, e ela notava que cada vez menos lagartas se juntavam para contar a história do povo antigo. Uma única expressão de orgulho e inveja clareava o mistério: casulos! Todas estavam se preparando!
“Eu não serei pega de surpresa! Sentirei logo a mudança qualquer que seja! Prestarei atenção ao mínimo detalhe, à mínima mudança no meu corpo!”
E assim foi. Um arranhão aqui. Uma pintinha nova. Uma pequena dor de barriga! Nada grave. A não ser o frio nos pés... Isso sim incomodava! Mas além de irônica, era uma lagarta esperta e teve uma idéia! Enrolaria uma folhinha nos pés. Porém, o frio foi subindo devagarinho e ela foi precisando cada vez de mais folhas, pequenos gravetos... Quando já estava imobilizada quase até a cintura foi sentindo uma vontade de ficar assim, de aproveitar o tempo frio para pensar na vida, mudar algumas coisas! Seria bom ter a chance de mudar!
E foi assim. Sutilmente abraçada pela mudança. Até que o sono passou, o calor veio, as flores voltaram... e a borboleta esticou suas asas novas, enrolou a ponta de suas antenas e voou.
“Não faço idéia de como vim parar nesse emaranhado de folhas e galhos, mas foi bom sair e sentir o vento!”

Se alguém souber algo sobre o artista da gravura acima... Ele simplesmente saiu do site deviantart...
ResponderExcluirlindo!
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